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02/03/2011 00:00:00

APÓS ENXURRADA, ÁGUA, LAMA E AR DE FRIBURGO ESTÃO CONTAMINADOS

Fonte: Fantástico

Link: http://fantastico.globo.com/Jornalismo/FANT/0,,MUL1643463-15605,00-APOS+ENXURRADA+AGUA+LAMA+E+AR+DE+FRIBURGO+ESTAO+CONTAMINADOS.html

Data: 23/01/2011

Quando o sol finalmente chegou, veio a poeira. Garis varrem, mas no esforço para tirar tanta sujeira do chão, a sujeira sobe para o ar. Na cidade esfacelada, poças de água, lama, esgoto correndo solto.

Os sobreviventes da tragédia ainda não estão fora de perigo. Há muitas doenças que ainda podem atingir as pessoas nessa zona de destruição.

A pedido do Fantástico, um especialista vai testar o ambiente em Nova Friburgo. Primeiro, uma amostra da água do Rio Bengalas, que corta a cidade.

“Nós estamos coletando porque nós queremos saber qual o grau de contaminação deste rio. Ele está visivelmente fora dos padrões. Toda essa cheia aconteceu nesse rio”, diz Gandhi Giordano, engenheiro sanitarista da Uerj.

Também coletamos amostras da lama. Da poeira, que é a lama seca. E da água fornecida pela rede de abastecimento da cidade. As análises foram feitas num laboratório creditado pelo Inmetro.

“Na água do rio, nós analisamos Escherichia coli, que é uma bactéria que é presente no intestino de pessoas, ou seja, um coliforme fecal. O limite dela permitido é de 800 unidades por 100 mililitros, que é um copo pequeno de água, então são 800. Lá tinha 68 mil; 85 vezes maior que o limite”, alerta o professor Gandhi.

Na lama, ainda pior: 92 mil coliformes fecais a cada 100 mililitros: 115 vezes mais coliformes fecais do que o tolerado.

A contaminação na semana da tragédia era ainda mais alta. A correnteza já diluiu boa parte da sujeira.

“Aquele pessoal que teve contato inicial com essa enchente, teve contato com coisa bem pior do que essa que nós analisamos. Na verdade, os primeiros dias são mais perigosos ainda”, diz o sanitarista.

No ar foram encontradas mais de 2 mil bactérias por metro cúbico. Treze vezes o pior resultado já encontrado por um laboratório na cidade do Rio de Janeiro. O ar está também cheio de fungos, 15 vezes mais que a pior medição.

Uma pessoa respira dois metros cúbicos de ar por hora. Os moradores de Nova Friburgo, então, estão respirando cerca de 4 mil bactérias e 4 mil fungos por hora.

“Esta poeira contaminada com fungos aumenta o risco de alergias respiratórias pras pessoas que tem essa sensibilidade. Também podem provocar conjuntivite, rinite e sinusite”, alerta Esper Kallás, infectologista da USP.


Quanto mais gente vivendo e dormindo no mesmo ambiente, mais facilmente um vírus ou bactéria pode se espalhar.

“Essa é uma situação emergencial. E ela tem que ser o mais provisória possível porque embora tenha ajudado muito essas pessoas, com o passar do tempo a aglomeração, nessas condições de habitação que são muito precárias, começam a facilitar a transmissão de algumas doenças. São doenças de transmissão respiratória. Um exemplo delas é a gripe. E são doenças de transmissão por contato e transmitidas através de alimentos”, explica Esper.

Os hospitais já congestionados na região, vão recebendo gente com outras doenças.

“No primeiro momento, os pacientes eram aqueles politraumatizados, vítimas de acidentes graves, muita fratura. Agora, a gente já está tratando as complicações que são as feridas infectadas, são as diarréias, os vômitos, que são aquelas pessoas que tiveram algum tipo de contato com a água contaminada”, aponta Jamila Calil Salim Ribeiro, secretária municipal de saúde de Nova Friburgo.

Vocês se lembram de Daniel. Ele ajudou a salvar a dona de casa Ilair Souza.

“Na hora que eu peguei a corda para puxar, no primeiro pisão eu senti o incômodo, só que na hora da adrenalina, com o corpo quente, aquilo tudo, eu nem senti. Na hora em que ela chegou lá em cima, que eu olhei o ferimento, eu vi que estava sangrando muito. Eu peguei muita lama, porque eu tive que atravessar toda a minha rua. Então a água tinha acabado de baixar, tava aquela lama suja”, lembra o auxiliar de produção Daniel Lopes.

Ele foi tratado. Mas dois dias depois o pé estava infeccionado pelas bactérias da lama. De volta ao hospital, ficou internado.

“O médico falou na hora: ainda bem que vocês correram, porque poderia ter uma, a infecção podia chegar até o osso”, diz Daniel.

Daniel e todos que entraram em contato com a água contaminada e tiveram cortes estão recebendo a vacina antitetânica. Tudo para evitar que um arranhãozinho vire uma infecção generalizada, que pode até levar à morte.

Monica bebeu água de poço contaminada:

“Fiquei com diarréia depois que eu tomei água da torneira, só tomo água da torneira, não tomo do filtro nem mineral”, admite a embaladeira Monica Aparecida dos Santos.

“Eu recomendei usar bastantes líquidos ou fazer o preparo do soro caseiro. E medidas de higiene”, orienta a médica Cibele da Silva.

A boa notícia do teste do Fantástico: quem recebe água da rede está bebendo e lavando alimentos em água limpa. Agora, duas doenças preocupam: a hepatite A e leptospirose, que já apareceu na região atingida.

“A gente tem uma previsão aí do Ministério da Saúde que nós teremos pelo menos um ano de problema”, acredita a secretária Jamila.

“É muito importante que a gente tenha um plano de ação já elaborado antes da tragédia acontecer. Com o exemplo de várias outras tragédias que aconteceram no mundo, inclusive no Brasil, nós conhecemos um pouco o padrão de como essas doenças infecciosas acontecem, a gente sabe a sequência que elas acontecem. Então, planejamento, sem dúvida nenhuma, ajudaria a combater situações como essa com mais eficiência”, avalia Esper.
 

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